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29/05/2026Por Carlos Fernandes, do Ongrace

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A América Latina — o Brasil, em particular — e o Caribe estão esquentando em ritmo mais acelerado desde o início das medições, há 125 anos. Essa é a principal conclusão do relatório que avalia o clima na região, divulgado em meados deste mês pela Organização Meteorológica Mundial (OMM), ligada à ONU, durante evento em Brasília. A entidade analisou o período em quatro recortes de 30 anos e calculou a velocidade do aumento médio da temperatura. O último período, de 1991 a 2025, chama particularmente a atenção por ter sido muito mais quente do que os demais.
No que se refere ao Brasil, o aquecimento já é maior do que a média global, com pico de aumento de até 3ºC nos últimos 60 anos. O relatório cita fatos ligados ao fenômeno, como derretimento do gelo nas calotas polares, elevação do índice dos oceanos e a intensificação dos ciclones tropicais, acarretando, entre outras consequências, enchentes, secas e ondas de clima extremo. Em 2025, por exemplo, os picos de 40ºC atingiram, frequentemente, grandes áreas do continente americano — por exemplo, 44ºC no Rio de Janeiro, 44,8ºC em Mariscal (Paraguai) e 52,7ºC em Mexicali, no México.
O autor principal do relatório é o climatologista brasileiro José Marengo, pesquisador do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden). De acordo com a OMM, o calor elevado é cada vez mais um problema de saúde pública. Estimativas apontam aproximadamente 13 mil mortes ligadas aos extremos climáticos em dez anos. Contudo, o relatório Estado do Clima na América Latina e no Caribe 2025 admite que esses números estão subestimados, já que muitos países não publicam dados claros a respeito.
Ainda segundo o levantamento, o regime de chuvas foi muito alterado nos últimos 50 anos. A principal mudança se refere à regularidade das precipitações — os períodos de seca ficaram mais longos e as precipitações, mais intensas. Os extremos são notados no território brasileiro: ao mesmo tempo que enchentes devastadoras afetaram a Região Sul — no caso das cheias de abril e maio de 2024, as maiores da história do Rio Grande do Sul —, o Nordeste sofre períodos de seca mais extensos do que a média histórica.
No caso dos oceanos, o alerta também preocupa. O relatório mostra mudança no pH, índice que diz respeito à acidez e alcalinidade das águas, interferindo diretamente na vida marinha. Em 2025, ele atingiu o nível mais baixo já registrado no Atlântico Sul, que banha o litoral brasileiro. O processo, conhecido como acidificação, é provocado pelo aumento da absorção de gás carbônico proveniente de atividades humanas. O processo é sistêmico, pois afeta o clima global.
Os pesquisadores alertam ainda que o aumento de 2ºC na temperatura média global até meados deste século pode provocar a perda de até metade da cobertura vegetal amazônica pela combinação de ocorrências como desmatamento, redução das chuvas e aumento dos incêndios. Esse panorama seria catastrófico, impactando o acesso à água, à produção de alimentos e energia elétrica. “O relatório não é apenas uma publicação científica, mas também um apelo à ação, que nos impele a fortalecer as observações, investir em serviços, abordar as deficiências nos sistemas de alerta precoce e garantir que as informações climáticas cheguem a quem mais precisa delas”, disse a secretária-geral da OMM, Celeste Saulo, durante o evento de divulgação do estudo.





