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Inclusão de crianças e adolescentes autistas na comunidade cristã ainda é um desafio, mas a IIGD se destaca com iniciativas em favor dessas famílias

Por Carlos Fernandes, do Certeza da Vitória

Imagem: AdobeStock

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Quando recebeu o diagnóstico de que seu filho único, Miguel, era portador de transtorno do espectro autista (TEA), a artesã Eliane Nunes Lima ficou abalada. “Foi bem difícil”, lembra-se. Na época, a criança tinha menos de dois anos e apresentava os “sinais atípicos”. “Miguel não olhava em nossos olhos quando falávamos com ele nem atendia aos nossos chamados. Também não falava”, conta a mãe. Com o crescimento do menino, o quadro se complicou, inclusive quando a família ia aos cultos da Igreja Internacional da Graça de Deus em Parque Novo Mundo (SP). O ambiente movimentado, a presença de estranhos e a liturgia das reuniões, com música e som amplificado, perturbavam Miguel: “Ele gritava e se jogava no chão. Era difícil acalmá-lo”. Ao longo do tempo, o constrangimento com a situação levou Eliane a deixar de levar o garoto aos cultos.

A artesã Eliane com Miguel, seu filho, na Igreja: acolhimento – Imagem: Arquivo pessoal

Envolvida nos cuidados e atendimentos ao filho, Eliane tem uma rotina de consultas médicas, exames e terapias. “Ficávamos cansados, e o Miguel, desorganizado”. A fé era essencial. Assim, a mãe decidiu que a casa do Senhor era o lugar certo para ele. “Conversei com o pastor, que me orientou a levá-lo para a comunhão, sem me preocupar com o que os outros pensariam, pois Deus estava cuidando de nós”. Aquela atitude decisiva traçou um novo rumo para a questão. “Pedi ao Senhor sabedoria e paciência ao lidar com a situação”, observa Eliane. Hoje, Miguel está com sete anos e apresenta sensível evolução. “Ele interage com a família, está na escola e não tem mais dificuldades em ambientes cheios ou barulhentos”, comemora a mãe. Além do convívio com famílias atípicas que se apoiam mutuamente, Miguel é querido na Igreja e participa da escolinha bíblica e de outras atividades. Suas peculiaridades não são mais um fator de impedimento à vida cristã.

A experiência da família Lima tem sido cada vez mais comum. Além da maior incidência de casos, que pode estar ligada a fatores ambientais e ao aumento médio da idade das gestantes, o maior acesso da população aos serviços de diagnóstico, a disseminação de informações sobre os primeiros indícios do transtorno e a própria ampliação do entendimento sobre o autismo têm tornado essa condição mais perceptível socialmente. Os números atestam isso. Segundo dados do Center of Diseases Control and Prevention (CDC), órgão ligado ao governo dos Estados Unidos, existe um caso de autismo em cada 110 pessoas. Sendo assim, o Brasil teria perto de 2 milhões de portadores de TEA, em seus diferentes níveis – desde o mais leve, no qual o indivíduo tem boa autonomia e necessita de pouco suporte, até o mais severo, em que o portador apresenta muita dependência para atividades básicas. Dificuldades na comunicação e interação, além de comportamentos repetitivos e transtornos de aprendizado, são algumas características do espectro autista.

Tia Ju: CQV promove treinamento e incentivo, para as equipes do ministério infantil se capacitarem no acolhimento às crianças com TEA – Imagem: Divulgação

Apesar do número crescente de indivíduos com essa condição, o autismo segue despertando dúvidas e inseguranças, pois envolve atendimento multidisciplinar nem sempre acessível a todas as famílias, sobretudo às mais carentes. E, se o transtorno ainda é relativamente pouco conhecido e abordado coletivamente, a Igreja não foge a essa realidade. A chegada e a presença de autistas, sobretudo crianças e adolescentes, às congregações cristãs não são um fato novo, mas tem despertado mais atenção. Todo ano, em abril, mês dedicado à conscientização sobre o autismo, inúmeros eventos temáticos, congressos e encontros acerca do tema são realizados país afora. E a Igreja da Graça incluiu a pauta em seu Congresso Anual de Líderes do Ministério Crianças que Vencem (CQV), que, neste ano, será realizado em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense (RJ), dos dias 28 de abril a 1º de maio. A programação incluiu uma palestra sobre os desafios e benefícios da inclusão de portadores de TEA nas atividades desenvolvidas na IIGD. “Temos visto que é algo da parte de Deus tornar as igrejas cada vez mais acolhedoras a esse segmento”, aponta a pedagoga Jucimara Oliveira, também conhecida como Tia Ju, líder nacional das atividades de CQV. “Com a incidência cada vez mais notável dos casos de autismo nos últimos anos, temos adequado nossa recepção às crianças atípicas e suas famílias.”

Segundo a Tia Ju, isso inclui desde os cultos às atividades educacionais e recreativas, no que se refere a perceber as particularidades que cada criança autista apresenta em seu desenvolvimento. No entender de educadora, o longo período de isolamento social, durante a pandemia de covid-19, interrompeu as atividades presenciais nas escolas e nas igrejas, prejudicando o processo de integração de inúmeras famílias atípicas. “O retorno nos despertou para essa necessidade. Nosso último congresso foi um estímulo e uma sinalização do quanto precisamos avançar nesse aspecto”. No âmbito da IIGD, diversas iniciativas têm sido implementadas. Uma delas diz respeito ao treinamento e à capacitação para o atendimento a esse público especial. “Temos cursos preparatórios para monitores e recebemos a ajuda preciosa e voluntária de especialistas, como psicólogos, psicopedagogos e neuropsicopedagogos. Esses profissionais têm nos orientado no direcionamento dessas ações”, informa a educadora.

“Respeito, cuidado e amor”

Apesar das dificuldades diárias com Gustavo, Juliana prioriza a ida à Igreja: “Com o tempo, ele vai entender o valor disso” – Imagem: Arquivo pessoal

A Tia Ju lembra que, em Mateus 19.14, Jesus orientou que as crianças não fossem impedidas de ir até Ele: “Como Igreja acolhedora, temos despertado os líderes, membros e as famílias nesse propósito. A Igreja de Cristo é um todo, sem exceções, e queremos nos capacitar para prestar a melhor recepção e o melhor atendimento às crianças com necessidades especiais”. Essa postura é essencial para Juliana Paulino Lopes, de Santos (SP), mãe de Gustavo, 11 anos. O menino está em tratamento médico e frequenta a escola em meio período. A família também conta com a ajuda de uma cuidadora. “É uma rotina cansativa, ainda mais para uma mãe solo”, admite Juliana. Mesmo assim, ela faz questão de levá-lo aos cultos da IIGD em sua cidade, onde Gustavo recebe atenção especial: “Isso o tem ajudado a se acalmar, e ele tem evoluído. Com o tempo, sei que ele vai ter esse entendimento da importância de estar na casa do Senhor.”

Psicóloga Sandra: respeito, cuidado e amor são essenciais no trato com as crianças e os adolescentes e suas famílias – Imagem: Arquivo pessoal

  “As crianças com TEA têm necessidades físicas e emocionais, assim como as crianças típicas. O que as diferencia é a maneira como vivenciam as experiências, sentem e se expressam”, explica a psicóloga clínica Sandra Faria Feiras Machado. Especializada em Terapia Cognitivo-Comportamental voltada a crianças e adolescentes e com campo de atuação direcionado para as emoções e o autoconhecimento, ela entende que a falta de conhecimento sobre as necessidades do portador de TEA gera insegurança: “A ausência de suporte necessário no acolhimento das famílias atípicas é um desafio para muitas comunidades cristãs”. No entanto, Sandra frisa que a Igreja pode ser terapêutica. Ela participou do Congresso de CQV e contribuiu com informações na palestra ministrada sobre autismo. “Juntos, abordamos assuntos pertinentes à realidade que experimentamos no dia a dia e no ambiente da Igreja”, destaca a psicóloga, membro da IIGD desde a juventude. “Quando eu tinha 17 anos, recebi o convite de uma tia para ir com ela à Igreja da Graça. Nesse ministério, conheci a Palavra e aceitei o chamado para atuar como professora na escolinha. Eu cursava o Magistério na época e, logo depois, concluí Pedagogia. Minha formação em Psicologia contribui para que eu possa ajudar as pessoas que têm passado por conflitos emocionais.”

No evento, foram abordados diversos assuntos, como a identidade infantil, a importância do servir, conflitos na sexualidade, bullying, entre outros. “Também foram esclarecidas as dúvidas das voluntárias a respeito da abordagem a crianças com TEA e como ajudar suas famílias, contribuindo para um melhor desenvolvimento do trabalho nas Igrejas”, observa Sandra. Segundo ela, muito mais do que um ambiente preparado, é necessário ter pessoas dispostas a buscar conhecimento a respeito do autismo e identificar as necessidades individuais das famílias e crianças que participam dos cultos e atividades infantis, para que se possa oferecer o suporte necessário. “Geralmente, para a família já existe um grande desgaste físico e emocional no cuidado às crianças com TEA. Muitas vezes, quem cuida não recebe cuidados. O ambiente da Igreja pode ser um local de conforto, força e esperança, para que a família continue na sua missão. Respeito, cuidado e amor não falham”, frisa Sandra.

Glaucia, especialista no atendimento a portadores de TEA: a Igreja precisa se preparar para receber melhor esse grupo – Imagem: Arquivo pessoal

A pedagoga Glaucia Alves, membro da IIGD em Pirassununga (SP), é especialista em Educação Especial e Autismo, além de pós-graduanda em Neuropsicopedagogia. Ela vê com bons olhos os benefícios que a comunidade de fé pode agregar às crianças e famílias atípicas: “A inclusão é um ato de acrescentar, adicionar grupos que antes não faziam parte por vários motivos. Nossa função, nas igrejas, é incluir essas crianças com igualdade, porém com conhecimento, a fim de desenvolver um trabalho eficiente”. Com sua ampla experiência – Glaucia atua no Centro de Estudos e Desenvolvimento do Autismo e Patologias Associadas e na Sala de Recursos TEA, em duas escolas de sua cidade –, ela defende que a Igreja tem de se preparar para essa realidade. “Em nossa congregação, temos crianças elegíveis à educação especial, com laudo”, comenta. “Um dos benefícios da inclusão, para as crianças e suas famílias e para a igreja acolhedora, é o fato de elas receberem a atenção e compreensão que não encontram em outros ambientes, como em boa parte da sociedade ou nas escolas. É necessário a Palavra alcançar essas pessoas. Para isso, é importante a Igreja se preparar para interagir com o autista a partir da formação de uma rede de apoio composta pelos membros que receberão essas famílias. Devemos incentivar a criação do ministério da inclusão na comunidade cristã, para haver a aproximação das pessoas que trabalham na obra com esse público.”

Informação e solidariedade

O aumento da conscientização em torno do autismo e do melhor proveito do ensino e da adaptação voltados ao portador de TEA tem chegado à educação cristã. A psicopedagoga para o Desenvolvimento Atípico, Karla de Araújo dos Santos, do Rio de Janeiro, é mãe de Guilherme. Ela conta que a chegada do menino remodelou a vida dela e do marido, Sólon. Evangélicos conscientes, eles fazem questão de que Guilherme aprenda a Palavra de Deus de maneira que consiga absorver esse conhecimento. “No caso do meu filho, que não tem oralidade, usamos adaptações materiais e a comunicação aumentativa interativa”, explica Karla, que se especializou na área. Nesse sentido, ela desenvolveu materiais específicos para escola bíblica, por meio dos quais a criança pode aprender sobre o plano da salvação e a vida cristã. “São lições bíblicas adaptadas para crianças com necessidades complexas de comunicação”, explica.

Quanto à Igreja, ela não tem dúvidas: a sensação de pertencimento da família atípica ao Corpo de Cristo é essencial. “Tudo é diferente quando a gente encontra uma Igreja acolhedora”, comenta. Para ela, a criança autista, como todas as outras de sua idade, precisa de comunhão e amizades. “Quero isso para meu filho, e graças a Deus ele está obtendo”, constata. “É maravilhoso eu e meu marido podermos participar de um culto e tomar a Ceia do Senhor juntos, sabendo que nosso filho está aos cuidados de pessoas vocacionadas”, comemora a psicopedagoga. “Que a liderança cristã entenda a diversidade e queira vivê-la. Para isso, é necessário treinamento, mas também que a Igreja aprenda e discuta a neurodiversidade. Deus amou todas as pessoas, e Sua Igreja precisa fazer o mesmo.” 

A Pra. Regiane com Heloísa: “Mãe azul dedicada, ela busca consagração espiritual e conhecimento acadêmico para melhor atender as famílias na mesma situação que a dela – Imagem: Arquivo pessoal

Heloísa Cardozo Miranda, de 12 anos, tem vivido a inclusão. Ela é muito querida no templo-sede da Igreja da Graça em Valentina, na cidade de João Pessoa (PB). A adolescente participa de todas as programações infantojuvenis da congregação, além dos cultos de louvor e adoração ao Senhor. Sua mãe, a Pra. Regiane Cardozo, é líder das Mulheres que Vencem (PB) e, devido à condição da filha, tornou-se estudiosa do autismo e uma defensora da inclusão social das pessoas com TEA. “Sou uma mãe azul”, afirma orgulhosa, referindo-se à maneira como as mães de autistas são chamadas. “Antes, eu não sabia o que era o TEA com a propriedade de hoje”. Quando a menina era pequena e frequentava a escolinha da Igreja, Regiane achava que alguns traços de seu comportamento a diferenciavam das outras crianças. “Pensei que o fato de ela trocar o dia pela noite e as dificuldades com a fala seriam resolvidas com o passar do tempo”. Contudo, isso não aconteceu. Certa vez, a diretora da escola onde Heloísa estava matriculada chamou a atenção de Regiane para a possibilidade de Heloísa ser autista. “Percebi que minha filha era diferente”, recorda-se. “Comecei a observar características que não havia notado, como a falta de interação, as estereotipias e os hábitos, como o de organizar as coisas por cores e tamanhos, em sequência.” 

Indicações de amigos influenciaram a família a procurar um especialista. Seis meses de exames e protocolos de diagnóstico levaram à conclusão de que a garota tinha autismo em grau moderado. “Iniciamos uma saga em busca de tratamento, com psicólogo, fonoaudiólogo e psicopedagogo”, descreve a pastora. “Podemos dividir a nossa vida em antes e depois do diagnóstico. Heloísa tem evoluído e está mais organizada, superando as crises e desfrutando de boa autonomia”. Ela é considerada uma autista sensorial, pois gosta de experimentar aromas e sabores, come sozinha e adora passear. “Diferentemente de outras crianças com TEA, Heloísa curte música e suporta bem o barulho. Isso é essencial para nós, que vivemos na Igreja”, brinca Regiane. “A fé nos estruturou. Quando se recebe esse diagnóstico, o primeiro sentimento é o luto. Em um mundo tão tecnológico, a gente vê as limitações de nossa filha e pensa em como vai ser o futuro dela”, pondera a pastora. “A gente procura em Deus o conforto, a solução e a cura.”

Como não poderia deixar de ser, Regiane considera a Igreja do Senhor o melhor lugar para as famílias atípicas. Há nove anos fazendo a obra de Deus na Paraíba, a líder conta, com satisfação, que a Igreja tem sido acolhedora. “A TiaKelly, coordenadora da escolinha, é atenciosa e faz cursos sobre autismo. O CQV tem feito um trabalho formidável, como as lives, com participação de diversos pastores e outras famílias atípicas. Fico feliz com o cuidado que a IIGD dedica a essa questão”. Cursando o último ano da faculdade de Psicologia, Regiane tem estudado bastante e pretende usar o seu conhecimento como mãe atípica e psicóloga a serviço de pessoas como Heloísa. “Quando o entendimento chega, tudo fica mais fácil. Outros pais de autistas, quando sabem que sou uma pastora e mãe azul, naturalmente se aproximam em busca de apoio espiritual, solidariedade e orientação. Convivo com várias famílias a exemplo da minha, e se forma uma rede de apoio e acolhimento. O Senhor tem nos abençoado.”  

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